“Não queremos ter o que não temos,
nós só queremos viver;
não queremos aprender o que sabemos,
não queremos nem saber.”
Humberto Gessinger
Muitas vezes penso que meu problema é justamente pensar demais, dar chance à traição que minha mente enfia, angustiante, fria e dolorosa, por entre minhas costelas ao pisar e repisar os mesmos velhos e indigestos passos errados do passado; ao olhar insistentemente para os lados para saber se estou no caminho certo quando tenho certeza de que sucumbiria se me visse no caminho errado; ao acabrunhar-me covardemente nas entranhas pálidas de um livro insosso e áspero qualquer, embora exuberante, na volta para a segurança mórbida de minha casa enquanto a vida me abana do outro lado da janela embaçada do ônibus que segue triste e cambaleante pela noite, confuso entre logradouros que sabe-se lá onde vão dar e paradas reticentes e nervosas.
Mas não. Em lapsos breves, escuros e úmidos (serão clarões?) me percebo alienado. Não choro, não odeio, não desejo, não deleito, não sinto: não penso. Quantas vezes na vida fiquei acordado na madrugada crua e modorrenta sem nada de útil para fazer que não dormir? Dormir e pensar. E escolho sempre, mecânica e resignadamente, o primeiro. Deito a cabeça pesada de um dia frutífero e virtuoso e vazio, e espero o breu do sono me embalar rumo a uma vida epopéica, porém edule. Devia ter ficado acordado, esperando, remoendo, respirando. Custava ter fechado o livro?
Sim. Custava. Custou. Furtei-me de pensar, escondi-me atrás mesmo de uma quilíade de pensamentos copiosos, porém mirrados; um milhar de umbrais construídos de meus julgamentos sob os quais tomei abrigo dos ventos gélidos da ignorância — é assustador como são alentadores: a hipotermia entorpece os sentidos e faz passar a frialdade. Não sinto mais o frio, mas também não me sinto aquecido. Pensamentos meus buscaram respostas para muitas coisas, mas nenhum lenimento ao anelo cinza que me consome encontraram. E como poderiam, se ao lenitivo não visavam? Erros, erros, sempre os mesmos erros...
Agora sou eu. Sou isso. O que acho que queria ser. Dos meus parcos e incidentais atinos e fortunas subsisto, mas algo me tolhe, me amarra, algo me segura, me impede de viver. Quiçá algo me falte, pode ser. Comprei caro esse lastro, mas pago a conta-gotas, em prestações incômodas e lascivas (a quem?), dia após dia, que não vejo passar porque me preocupo em cuidá-los passando. Mas um dia hei de encontrá-la, a peça que me desfalca, me desampara. Só temo que seja cedo demais.
[15022005]